Dado aos fatos e a cantilena falada aos quatro ventos sobre o aparecimento de deficiência de manganês em soja, após o uso do glyphosate com o gen de resistência “RR”, decidimos traduzir e transcrever este texto, que pode ser encontrado na íntegra do livro “A Era do Glyphosate, Meio Ambiente e o Homem”, de autoria de Dana Katia Maschede e Dionisio Luiz P. Gazzieiro. O livro foi publicado por ocasião do simpósio com o mesmo nome, ocorrido em Londrina em setembro de 2016.

O objetivo que nos levou a traduzir e transcrever a mensagem foi a falta de critério técnico, bem como a confusão de informações que se tem a respeito de problemas nutricionais com manganês associados ao uso do glyphosate. Um monte de gente dá palpites sem ter a mínima noção do que realmente se passa com as plantas devido ao uso do glyphosate. Dessa forma, se criou até um “mercado paralelo de manganês” devido a este “fato”, que ninguém sabe bem como ocorre, por que ocorre e o que ocorre. Mas como estamos falando de agronomia, tem “adivinho” para tudo.

A classe agronômica adora criar fatos e explicações para coisas pouco explicadas, gosta de propor uma teoria, que devido ao pouco conhecimento vira fato concreto. Todos saem propagando as mesmas coisas e por vezes, mentiras se tornam verdades.

O mercado ávido por fatos para criarem novos produtos, para entulhar mais do que já estão entulhadas as prateleiras das lojas especializadas, sai aos quatro ventos aspergindo manganês aleatoriamente devido ao caos proposto pelos arautos do apocalipse. Ou seja, aplicou glyphosate, vai um managanesinho de brinde para estancar as deficiências que a aplicação promoverá. Tudo de forma aleatória e sem critérios.

No livro descrito acima há um capitulo escrito pelo emérito Prof. Stephen O. Duke do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos no Missouri.

O Dr.Duke é uma das maiores autoridades do mundo no estudo de mecanismos de ações de herbicidas, foi o descobridor de muitos mecanismos de ação, inclusive muito premiado quando da descoberta dos mecanismos dos Inibidores de PROTOX, que há anos são usados na agricultura, mas pouco se sabia sobre seu modo de ação. Portanto, o Dr, Duke é um dos maiores conhecedores da molécula do glyphosate e assim é para ser ouvido no que tem a dizer sobre estes fatos corroborados por estudos e não “de ouvir falar”.

O capitulo escrito pelo Dr. Duke foi aqui traduzido na integra como esta publicado no livro no capitulo sobre. “Efeitos Secundários do Glyphosate nas plantas”.

Efeito sobre a Nutrição Mineral

“Após mais de uma década do sucesso da produção usando plantas geneticamente modificadas (OGM) (RR) há relatos de que o glyphosate causa grandes déficits de nutrientes, especialmente o manganês (Mn++), devido a sua alta capacidade complexante (e.g. YAMADA et. al 2009, ZOBIOLE ET AL 2010).

Esses autores ligaram a deficiência de manganês à provável suscetibilidade das plantas a patógenos quando tratadas com glyphosate. (JOHAL e HUBER, 2009.).

Há muitas evidências para rebater estas questões.

A primeira é que as plantas geneticamente modificadas foram amplamente adotadas nos Estados Unidos, o aumento da produtividade das lavouras tem sido observado ano a ano e mesmo após a adoção do glyphosate.

A segunda é que o fator de resistência das plantas RR é de 50 vezes maior do que as plantas sensíveis (NANDULA et. al 2006) indicando que não há danos significantes às plantas modificadas (RR) nas doses de campo recomendados de glyphosate. De fato, há até evidências de que as doses recomendadas de glyphosate podem até incrementar a produtividade, devido à “hormesis”.

Duke et. al. (2012a) resumiram toda a literatura sobre o assunto e de vários grupos de pesquisa. Duke et. al. (2012b) trabalhando com estas questões concluíram que efeitos significantes do glyphosate sobre a nutrição mineral são desprezíveis. Os autores sugeriram vários motivos pelos quais, estes efeitos não são encontrados. Em adição as razões acima eles incluíram:

  1. O fato do glyphosate ser em quelante fraco comparado a quelantes empregados nos produtos usados em nutrição mineral sem efeitos deletérios.
  2. A taxa de moléculas de glyphosate comparado com a taxa de moléculas dos minerais que poderiam quelatizar em plantas RR é mínima.
  3. O íon metálico Mn++, que todos reclamam é fortemente reduzido na presença do glyphosate favorecendo sua absorção, além do Mn++ ser fracamente ligado, muito menos que o Fe++, por exemplo, e outros cátions bivalentes.
  4. Mais recentemente Kandel at. al (2015) não encontraram efeito do glyphosate no conteúdo mineral das plantas de soja RR em estudos conduzidos por três anos em seis diferentes regiões nos Estados Unidos e Canadá. Isto poderia sugerir que não houve efeito em vários tipos de solos.”

Em resumo, a preponderância destes dados publicados sugere que o glyphosate em plantas RR não leva a deficiência significante de qualquer mineral nutriente

Se considerarmos a opinião do Dr. Duke, que provavelmente seja a mais abalizada em relação ao glyphosate, dado seu conhecimento da molécula, bem como sua vasta carreira acadêmica acerca do assunto, será que não e hora de pararmos para refletir sobre toda a estrovenga de ideias e opiniões que são postas dia a dia sobre fatos da agronomia e que muito pouca gente consegue digerir para efetivamente emitir opinião?

O grande dilema é que o agricultor é ávido em resolver os problemas que porventura ocorram em suas lavouras e o engenheiro agrônomo é ávido em propor soluções para a tal solução.  A problemática está na forma de como as soluções são propostas. Geralmente se baseia num “produto milagroso” que resolve qualquer situação (além de sempre conseguir ainda um aumento de produtividade).

O agricultor adora estas soluções e o que é pior, geralmente compra. Além disso, não se conhece qualquer produto que diminua a produtividade, as respostas são sempre positivas.  Ressalta-se ainda a falta de critérios técnicos e científicos que parece estarem sendo esquecidos na hora de se tentar esclarecer problemas.  Algum iluminado propõe a solução e os poucos iluminados passam a copia-la, daí em diante esta pronta a teoria.

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